sábado, 11 de setembro de 2010

Conto: A Bela Adormecida

. A história que vou lhes contar agora é de uma era muito distante,uma época em que existiam rãs falantes e fadas poderosas...
Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens e belos, mas infelizes, porque não conseguiam realizar o sonho de ter filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — suspirava o rei.
— Ou uma linda menina! — imaginava a rainha.
Mas os filhos não vinham, e o casal real ficava a cada dia, mais triste. Por todo o castelo, a melancolia era como aquele vento frio que, nas noites de inverno balançava as cortinas e passava assoviando por entre as frestas das janelas.
A vida ia passando também.
Porém, numa clara tarde de verão, aconteceu algo muito diferente. A rainha resolveu tomar banho num riacho que ficava nos arredores do parque real. Naquele dia especial, a luz amena do sol tornava mais vibrantes as exóticas flores da região e o ar estava impregnado de perfume e magia. Um raro momento esse, em que a rainha se permitia ficar alegre. Foi quando, de repente, pulou para fora da água uma rãzinha espevitada, dizendo :
— Majestade, não fique mais triste, o seu desejo se realizará logo: Antes que passe um ano a senhora dará à luz uma menina.
Foi bom o sonho que acolheu a rainha naquela noite, pleno de imagens de bebês rosados e risonhos.
E a profecia da rã se concretizou mesmo. Meses depois, no alvorecer dourado de uma manhã de primavera, a rainha deu a luz a uma linda menina.
O rei, imensamente feliz, resolveu organizar uma grande festa de batizado para a pequena princesa Aurora.
Como convidadas de honra, decidiu convidar as treze fadas que viviam nos confins do reino para que elas se mostrassem favoráveis e benfazejas para a criança. Mas, quando os mensageiros iam saindo com os convites, o camareiro-mor correu até o rei, preocupadíssimo.
— Majestade, as fadas são treze, e nós só temos doze pratos de ouro. O que faremos? A fada que tiver de comer no prato de prata, como os outros convidados, poderá se sentir desprezada. E uma fada ofendida...
O rei refletiu longamente e decidiu que a terceira fada não deveria ser convidada para evitar complicações. Com essa ordem, os mensageiros partiram e entregaram apenas doze convites para doze fadas.
Chegou o dia da grande festa! O castelo estava todo enfeitado com flores e os convidados compareceram todos muito elegantes. Uma profusão de ouro, veludos e sedas...
Quando as 12 fadas convidadas chegaram, toda a atenção se voltou para elas. Com uma atitude solene, cada das fadas se aproximou do berço em que dormia a princesa Aurora e ofereceu à recém-nascida uma dádiva preciosa : a beleza, a inteligência, a bondade, os bens materiais...
-

Onze fadas já tinham passado em frente ao berço e dado à pequena princesa um dom; faltava somente uma (distraída em tirar uma mancha do vestido, no qual havia derramado um pouco de vinho) quando o tilintar de taças e o burburinho alegre das conversas dos comensais foi substituído rapidamente pelo silêncio.
Uma vela se apagou no sopro de um vento. Achas se desfizeram em brasa na lareira...
Com uma expressão sombria e ameaçadora, a décima-terceira fada acabava de entrar no salão..
Apreensivos, todos acompanhavam os movimentos daquela que tinha chegado,
A mulher lançou um olhar maldoso para o bebê que dormia tranquilo e disse:
-Aos quinze anos a princesa vai se ferir com o fuso de uma roca e morrerá.
Depois dessa declaração, ela virou as costas bruscamente e saiu, deixando a maldição pairando no ar entre os comensais e um silêncio pesado de interrogações. Todos os olhares se voltaram esperançosos para a décima-segunda fada, que ainda devia oferecer seu presente e se aproximava agora do berço, titubeando :
— Não posso cancelar a maldição que agora atingiu a princesa. Tenho poderes só para modificá-la um pouco. Por isso, Aurora não morrerá; dormirá por cem anos, até a chegada de um príncipe que a acordará com um beijo.
A décima-terceira fada que havia saído do salão, mas que ainda não tinha deixado o castelo, ouviu tudo e tomada pelo rancor e pela raiva praguejou em voz baixa :
De jeito nenhum, isso vai acontecer. Ela dormirá por 100 anos quando então sua pureza será maculada por um ser absolutamente repugnante e seu espírito nunca poderá se libertar, permanecendo para sempre no limbo!
E tendo declarado isto, finalmente, saiu.
Enquanto isso, no salão, após os primeiros momentos do susto, o rei, decidiu tomar providências e mandou queimar todas as rocas do reino. E, daquele dia em diante, fiar era proibido naquela região.
À medida que o tempo passava, a princesa se tornava cada vez mais bonita e gentil, adorada pelos súditos, revelando ao mundo, as auspiciosas profecias das doze generosas mulheres sábias.
E a funesta profecia da décima-terceira ia sendo esquecida aos poucos,
até que nada restou desta lembrança.
Tanto que no dia em que completou quinze anos, Aurora se viu sozinha .O rei e a rainha tinham saído, alegres, para uma partida de caça.
A princesa, entediada por estar sozinha começou a andar, à esmo, pelo castelo. Chegando perto de um portãozinho de ferro que dava acesso à parte de cima de uma velha torre, abriu-o, subiu a longa escada e chegou, enfim, ao quartinho.
Ao lado da janela estava uma velhinha de cabelos brancos, fiando com o fuso uma meada de linho. A garota olhou, fascinada, porque nunca tinha visto um fuso.
— Bom dia, vovozinha.
— Bom dia a você, linda garota.
— O que está fazendo? Que instrumento é esse?
Sem levantar os olhos do seu trabalho, a velhinha respondeu com ar divertido.
— Não está vendo? Estou fiando!
A princesa, curiosa, olhava o fuso que girava rapidamente entre os dedos da velhinha.
— Parece mesmo divertido esse estranho pedaço de madeira que gira assim rápido. Posso experimentá-lo também?
Sem esperar resposta, pegou o fuso. E, naquele instante, cumpriu-se o feitiço. Aurora furou o dedo e sentiu um grande sono. Deu tempo apenas para deitar-se na cama que havia no aposento, e seus olhos se fecharam.
Na mesma hora, o feitiço do sono se difundiu por todo o palácio.
Adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça.
Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado. A formiguinha no açucareiro e a borboleta pousada na flor, o cozinheiro que assava a carne e a mucama que guardava a louça; os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que penteavam os cabelos.
O fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras também parou de queimar. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio.
Em volta do castelo, surgiu uma densa mata. Tão extensa que, após alguns anos, o castelo ficou oculto.
Nas aldeias vizinhas, passava de pai para filho a história da princesa Aurora, a bela adormecida que descansava, protegida pelo bosque cerrado. A princesa Aurora, a mais bela, a mais doce das princesas, injustamente castigada por um destino cruel.
No dia em que a profecia das fadas completava cem anos, a densa mata que cobria o castelo foi se desfazendo, como se uma mão mágica puxasse o fio de um tear. No jardim, flores desabrocharam impregnando o ambiente com seu perfume e frescor.
Nas redondezas, saindo à caça,, um príncipe cavalgava pensativo por entre as montanhas cobertas por bosques.
O sol de primavera erguia-se, brilhante, iluminando a paisagem com um festival de cores.
Subitamente, uma canção preencheu o ar despertando a atenção do cavaleiro, um som inebriante, estranho e melancólico que, às vezes, soava como a voz humana, mas, de repente, parecia ser apenas o farfalhar misterioso das árvores ou o murmúrio das águas.
Encantado pela sensação trazida pela música, o príncipe, curioso, seguia a direção do som , que ora vinha carregado pelo sopro suave do vento, ora parecia soar distante, confundindo os sentidos.
Cavalgava na última luz do dia, até que, finalmente, saiu da floresta e avistou um velho castelo no centro de uma grande planície. Ao seu redor, um magnífico jardim resplandecia com o início da primavera. Os últimos raios do sol poente luziam ofuscantes nas janelas. Uma figura de mulher apareceu numa delas, seu rosto, de uma palidez lunar, estava coberto de lágrimas.
Súbito, a visão desapareceu no interior do aposento, de onde podia-se ouvir novamente aquele canto de uma melancolia profunda, um lamento sem fim com notas de insanidade. A voz era tão melodiosa, quanto taciturna. O príncipe ouvia fascinado até que ela se calou.
A jovem apareceu na porta principal e olhou para os lados. Parecia observar se havia alguém ali. E então, saiu.
O príncipe desceu do cavalo e resolveu seguí-la.
Do outro lado do castelo, avistou-a, sentada num banco do jardim, cantando novamente. Ela usava um vestido branco e nos longos cabelos dourados, um diadema de pedras preciosas. Era uma princesa. As sombras da noite derramavam um ar de grave majestade sobre a sua figura.
Quando ela o viu, ergueu-se e disse com uma voz que era uma mistura de amor e pesar :
Jovem belo e infeliz, eu te amo, há muito tempo... Como vieste parar aqui ? Deixa-me e foge!
E se afastou rapidamente por entre os corredores do jardim.
Fascinado por tamanha beleza e sem poder compreender aquelas palavras, o príncipe seguiu-a, implorando que ela lhe explicasse o significado daquilo tudo. Mas ela não respondeu e ele continuou seguindo seu vulto até que ela entrou novamente no castelo.
Ele decidiu entrar também, mas ao atravessar a soleira, seu rosto foi envolvido por uma enorme teia de aranha que pendia do batente.
Passou a mão pela face e cabelos, livrando-se dos fios e da poeira,
Como não sabia o nome da jovem, chamou por princesa, em voz alta, várias vezes, mas ninguém respondeu.
O silêncio reinante era tão profundo que o príncipe podia ouvir sua própria respiração, um pouco ofegante, ressoando naquela quietude. O ambiente exalava um odor acre de mofo e decomposição. E a cada passo que dava, nuvens de poeira se levantavam. Ele procurava se orientar em meio à escuridão, quando seus pés tropeçaram no que parecia ser um corpo. Surpreso, abaixou-se e tocou-o, era mesmo um corpo, um corpo de criança. Estremeceu com a sua frieza e rigidez, era uma criança e só podia estar morta. Aquilo lhe encheu de horror, largou o corpo no solo, apertando os olhos para tentar enxergar melhor. Não conseguia.
De repente, uma luz bruxuleante de velas, vinda dos aposentos superiores, iluminou vaga e difusamente o local. O cenário macabro que ele conseguiu vislumbrar o fez sufocar um grito de pavor.
Por todos os lados do salão, corpos inertes se espalhavam nas mais variadas posições. Pareciam todos ...mortos...homens, mulheres, crianças, em posturas grotescas, hirtos e com uma palidez de cadáver..Não ousou tocar em mais nenhum corpo.
Transido de horror e fascinado pelo mistério, ele subiu as escadas, segurando-se nas paredes, tentando encontrar o único aposento iluminado. A princesa estaria lá ? Haveria mais alguém ? O que significava tudo aquilo ? As perguntas fervilhavam sem parar em sua mente já perturbada pela insanidade da situação.

Subiu por um longo tempo até que enfim, encontrou um portãozinho de ferro que levava à torre, era de lá que vinha a luz. Depois de um último lance de escada, chegou a um pequeno quarto com a porta entreaberta. As chamas das velas lançavam sombras fantasmagóricas pelas paredes, ele andava pé ante pé, procurando não ser notado por quem quer que estivesse ali.
Foi quando, quebrando o silêncio, o ar foi invadido por uma respiração arfante. Intensamente curioso, o príncipe espiou pela porta entreaberta e foi tomado por um sentimento de horror.
A figura da donzela, iluminada, neste momento, pelo luar que atravessava a janela, jazia inerte como uma estátua num leito, os cabelos espalhados pelos travesseiros. Um velho, de aparência grotesca, tinha lhe afastado as pernas e agora a possuía, resfolegando, com um fio de baba a lhe escorrer pelo queixo, entre grunhidos desconexos, blasfêmias e sorrisos perversos da boca desdentada.
Por alguns momentos, o príncipe ficou paralisado, a mente mergulhada numa espécie estranha de loucura, perplexo com aquela cena hedionda . Quando, finalmente, voltou a si, tomado pela náusea e pelo ódio, sacou da espada e lançou-se contra o velho, golpeando-o tantas vezes que este morreu, sem mesmo se dar conta, do que estava lhe atingindo.
O príncipe também não percebeu o momento em que o homem morreu, golpeava-o freneticamente, numa fúria desvairada que só se aplacou muito tempo depois, quando se percebeu coberto de sangue. Afastou-se, recuando, titubeante,, sem conseguir parar de olhar para o cadáver do velho caído sobre a donzela, o sangue que tingia as faces, o vestido, os cabelos da moça e pingavam no chão formando uma grande poça que brilhava com o luar . Ao recobrar as forças, arrancou o corpo do velho do leito e o jogou pela janela. O corpo despencou nas alturas.
Não conseguia pensar, não conseguia nem respirar ali. Desceu, cambaleando as escadas e saiu no jardim. Deitou-se na grama, contemplando as estrelas, tentando tirar aquelas imagens horríveis do pensamento. Depois de alguns momentos, fechou os olhos e dormiu, exausto.
Despertou, ao som de uma doce canção e com as carícias de uma mão delicada em seus cabelos. Abriu os olhos devagar e viu o rosto coberto de sangue da princesa, sorrindo para ele.
Epílogo :
Papai, aquele homem na estrada, por que está falando sozinho ?
Quem ? Ah sim, é só um louco. Vive há muito tempo naquele castelo em ruínas pelo qual passamos agora há pouco, dizem que é um príncipe que se perdeu por estas terras há muito tempo e enlouqueceu...Mas acho que é só lenda..
Ah..

Conto : Sou um rio

Fluindo, deslizando, sob a luz das estrelas, sinuoso,contornando pedras , tapete móbil de folhas que atravessa os vales, o chamado do sol estraçalha-me em partículas , vapor transparente, levito, subindo,à inomináveis alturas onde minha essência se encontra. Tensa condensação . Todos os meus átomos se reconhecem em energia concentrada. Confronto. Raio. Despejo-me do céu para me encontrar aqui de novo, fluindo, deslizando entre pedras...espelho de nuvens...me alimentando de chuva..
Perto dali..
Era muito cedo, mas o sol já aparecia. Todos dormiam, ,mas a menina já tinha acordado. Mariana esfregou os olhos e escorregou o corpinho da cama para o chão, sem fazer barulho. Calçou as havaianas e saiu para fora com o mesmo conjunto de shorts e camiseta com que tinha dormido. Desceu o morro correndo até chegar na beira do riacho. Deitou-se, debaixo da árvore, no capim, segurando o queixo com as mãos. Olhou para as águas, observando.
Lá no fundo, a reunião já tinha começado. O Sr. Peixe estava com a palavra :
Atenção! Peixes, algas caranguejos, sapos, toda a população viva do rio! Temos que tomar providências urgentes!Eles vão conseguir nos dominar, já estão fazendo isso...
Uma garrafa PET se levantou, interrompendo :
Que absurdo! Quem é o sr. para querer mandar aqui ?!? O mundo mudou meu caro. O rio não é mais o mesmo , não...A democracia..
QUEM SOU EU ?!? Quem sou eu ? Eu tenho tradição meu “caro”..pra começar a minha família está há nos rios desde tempos imemoriais, somos uma das principais fontes de alimentação para as comunidades humanas. O peixe é o símbolo de Cristo, da Páscoa, da fartura, é um signo astrológico, ora essa ... E você, quem é ? Seu, seu lixo !!!
A garrafa PET voou no pescoço do peixe e começou a estrangulá-lo, a turma do “Deixa disso” conseguiu separá-los quando o peixe já estava ficando roxo. O peixe se encostou num canto,ofegando. A PET, do outro lado, olhava zombeteira.
Um sapo, que dormitava em cima de uma pedra, tomando coragem, arriscou :
Do jeito que a situação está, temos que tentar conviver em harmonia. Eu acho que um pouco de tolerância..
Tolerância!!!!Ah,não...muito me surpreende..É muito conveniente para o senhor chegar com essa conversinha, justo o Sr. Que eu já vi, com esses olhos que estão sempre abertos , a se alimentar dos restos dessa turma de parasitas. Humfh..foi-se o tempo em que os sapos eram criaturas respeitáveis... mas não pense que me engana, os peixes nunca dormem no ponto! Aliás, os peixes nunca dormem!
- Shhhhhhhhhhhhhhhhhhh...silêncio, por favor!
Todos olharam para cima. Uma nuvem solitária repreendeu :
- Ora, parem com isso! Está quase na hora, eles já estão chegando!
Um pássaro pousou perto da margem e confirmou :
É verdade. Falta pouco...
Ficaram todos em silêncio e de repente, um levíssimo tremor percorreu a superfície das águas. As garrafas PET se encostaram no barranco. Os peixes abriram passagem, cerimoniosamente.
Um enorme clarão iluminou o fundo do rio , como se o sol tivesse acabado de mergulhar.
Os olhos flamejantes de uma enorme cobra abriram caminho, ela deslizou imponente, olhando para os lados e soltando faíscas.
Em seguida, um boto cor-de-rosa, passou cortês, tirando e colocando o chapéu para saudar os presentes.
Subitamente, tambores soaram e as águas foram sacudidas pela marcha de um exército inteiro de peixes espada. Todos os outros peixes e até as garrafas PET, sem exceção, se curvaram numa reverência. Era a magnífica carruagem do Príncipe Escamado, puxada por cavalos marinhos.
E, finalmente, um canto muito suave, uma doce melodia invadiu devagarinho o coração de todos quando surgiu uma linda sereia morena, de cabelos longos e negros. A canção era tão irresistível que até os peixes, fecharam os olhos para apreciá-la bem. A Yara passou.
De repente, o silêncio. Os peixes abriram os olhos. O cortejo tinha passado e todos voltaram aos seus afazeres.
A menina encantada ainda olhava, para ver se aparecia mais alguma coisa.
-Mariana!! Vem já, tomar café! Sai de perto desse riacho sujo!Eu já não te falei menina!
-Tá mãe. Tô indo.
Era sempre assim. Amanhã, ela pretendia voltar à mesma hora.

Conto : Era o dia

Tudo o que ele podia enxergar era aquele manto leitoso, espesso, gélido
cobrindo toda a paisagem, mas sentia que tinha chegado.
A névoa úmida dançava ao redor de seu corpo, mas apesar disso, continuava, sabia que tinha que ser por ali.
Andava e andava, cantarolando uma antiga canção country, o som trêmulo escapando por entre os dentes cerrados, quando, subitamente, atravessando as brumas, um velho surgiu,bem na sua frente, uma figura de cabelos longos e grisalhos, barba comprida, rosto pintado de cúrcuma, olhar fixo e inquisidor. Da mesma forma inesperada, o velho perguntou :
- Dentro de você, há dois cães,um bom e um ruim. Eles lutam.Qual dos dois enfim, vencerá ?
Perplexo, não sabia o que responder. Hesitou.
O olhar incisivo do velho exigia uma resposta, ia dizer “não sei” “ juro que não sei” quando sentiu aquelas mãos ossudas se fechando em sua garganta.Ele agarrou as mãos do velho tentando se livrar, tentava pensar também, mas as palavras se misturavam em sua mente..Há dois cães bons ? Quem vencerá ? Um é ruim ? Dentro de você enfim há cães...Dois ?... Um ? ..qual ? Qual ?
Sentia a agonia crescente de falta de ar e a visão se turvando até que finalmente, suas palavras chegaram :
Aquele a quem eu alimentar melhor!
Só então, as mãos afrouxaram e no lugar delas, surgiram garras.
E no lugar do velho, uma águia levantou voo cortando a neblina por onde passava até desaparecer no horizonte, onde já brilhava a luz avermelhada do sol nascente.
E lá estava o Ganges. Agora podia enxergar tudo ao redor.,as piras, os devotos de roupas multicoloridas que se banhavam, que oravam, oferecendo velas acesas, outros que lançavam nele, as cinzas e os ossos de seus entes queridos, cremados nas escadarias.
Fascinado, observou um homem de cabeça raspada, acendendo uma imensa fogueira onde seria cremado seu pai, cujo corpo acabava de ser lavado na água escura. Somente os outros homens da família podiam participar da cerimônia, mas ele se colocou a uma certa distância. Nem o filho do morto, nem os parentes deram por sua presença, então ele ficou olhando as chamas dominarem, aos poucos, a pira e de repente, pela intensidade do calor, a cabeça do morto explodir, diziam que era o momento da libertação do espírito.
Prosseguiu caminhando, mais a frente, uma vaca se aproximou da margem do rio para beber água, sem dar atenção a uma carcaça indefinida que boiava nas proximidades.
O cadáver de um velho iogue flutuava próximo, atraindo o interesse de alguns cães. Mulheres lavavam roupa, alguns metros depois, cantarolando velhos mantras. Do outro lado, alguns homens peneiravam as cinzas, na tentativa de achar alguma jóia ou objeto de valor que tenha sido esquecida pela família do morto.
O cheiro de sândalo da madeira queimada nas piras da casta alta se misturava ao fedor de água podre, esgoto e corpos em decomposição, causando-lhe uma forte náusea, mas não havia como negar, era chegado o momento,era a sua vez. Caminhou na direção dele. Subitamente, ouviu atrás de si, um farfalhar de saias.Não ia olhar para trás, mas um braço coberto de pulseiras segurou seu pulso.Seu olhar seguiu curioso aquele braço até encontrar o rosto da dona. Antes que pudesse protestar, ela gritou :
Você tem medo dos mortos ?
Essa pergunta lhe despertou um cinismo que parecia tão seu e tão repulsivo que ele temia lhe dar voz. Cerrou os lábios para não responder, mas a mão da mulher esmagava-lhe o pulso.
Ele devia responder agora, como não sabia o que era certo dizer, olhou curioso para o rosto dela, era uma mulher bonita e seus traços lhe lembravam uma época, um lugar , mas não sabia explicar o porquê.
De repente, ela lhe abriu um enorme sorriso, como que compreendendo sua lembrança, um sorriso que parecia cálido até que os lábios abertos rasgaram a carne, expondo uma boca cheia de parasitas que lhe devoravam, restando em poucos segundos, apenas o buraco fundo dos olhos e uma dentadura de caveira.
No entanto, os ossos daquela mão continuavam a lhe apertar o braço, com uma força férrea provocando uma dor aguda, até que a resposta lhe ocorreu:

Morte é ilusão...a vida como acreditamos também não existe...tudo não passa de maya.
E assim que terminou de dizer, sentiu o braço livre, a mulher tinha desaparecido.
Caminhou, finalmente, até as margens do rio.Antes de colocar o primeiro pé na água, olhou para cima, contemplando o azul puro do céu daquele momento, como se buscasse uma confirmação.Sentiu uma certeza e uma fé inabaláveis, algo que não se lembrava de ter sentido antes.
Nunca.
Mergulhou.
Lembranças explodiram em sua mente, como um filme numa velocidade vertiginosa.
Sapo coaxando na pedra tigre devorando a presa sacerdote rezando cortesã balançando o leque mosquito picando braço marinheiro içando velas vaca mastigando capim mulher amamentando pássaro levantando voo guerreiro levantando a espada dama levantando o vestido cobra rastejando padre dando hóstia galinha botando ovo velha penteando o cabelo menino morrendo de fome pássaro bicando fruta carrasco decepando cabeça professora escrevendo na lousa barata voando rapaz tocando piano cachorro roendo osso homem atingindo orgasmo moça quebrando a perna
aranha fazendo teia menina bordando assassino matando
E tudo ficou escuro. Levantou a cabeça. A lua já brilhava no céu. Contemplou o brilho atemporal das estrelas, enquanto boiava, em paz. O rio estava vazio, imerso em silêncio.
De repente, de algum lugar distante, podia-se ouvir o som suave de sinos.
Não, não eram sinos. O som não era suave também. Na verdade,era uma campainha estridente que anunciava o início do dia no presídio.
Acordou sobressaltado e sentou-se na cama. Já podia ouvir o barulho das chaves do guarda tilintando pelo corredor. Ele vinha buscá-lo.
Hoje era o dia da sua execução.

Conto : O tapete

As paredes de madeira do barraco, umedecidas pela chuva recente,deixavam entrar um vento frio e cortante por suas frestas.
No fogão , uma panela de sopa fumegante.
O menino tomou as últimas colheradas do caldo no seu prato, sentado num caixote. Olhou para a mãe que dormia no sofá , já há algum tempo. E depois, foi se deitar entre os dois irmãos maiores, no colchão grande estendido sobre o chão do cômodo. Puxou o cobertor velho e esburacado sobre a cabeça e logo adormeceu, apesar do frio.
De repente, ouviu batidas na janela. Tirou, com cuidado, o braço do irmão mais velho, de cima de seus ombros. Levantou-se sem fazer barulho foi até a janela e disse :
Quem é ?
Ninguém respondeu. Apesar do medo, resolveu abrir. Subiu no caixote para alcançar a tranca e abriu as folhas de madeira empenada. Uma onda de vento gelado invadiu o interior do barraco. O menino cruzou os braços no peito, tiritando de frio.
Quem é ? repetiu baixinho, temendo acordar a família.
Levou um grande susto, ao ver um pequeno tapete, flutuando no ar.
Trêmulo e hesitante, empoleirou-se no parapeito da janela e esticou o pé até tocá-lo.
O tapete deu um forte arrancão que quase o fez cair, mas ele se agarrou às suas pontas e finalmente, conseguiu montá-lo.
Alçando vôo o tapete cortou o ar glacial da noite com velocidade. Desviou de um grupo de cúmulos-nimbo e atravessou a camada de ozônio, até chegar ao espaço infinito, deu uma volta inteira na Lua e cruzou os anéis de Saturno.
Passaram por estrelas, cometas, nebulosas, fugiram de buracos negros e desbravaram galáxias. Visitaram a Terra do Nunca, O Eldorado e o Olimpo e até o menor planeta do mundo, o asteróide B612.
Finalmente, o tapete parou diante de um palácio. O menino saltou e atravessou o grande portão de entrada. Entrou no salão principal e subiu a escadaria. Chegando ao corredor, abriu uma das portas e enfiou debaixo das cobertas macias e quentes na grande cama de cabeceira entalhada. Mergulhou no sono.
Com os primeiros raios de sol da manhã, ouviu batidinhas nos janelões do castelo .Era o tapete.

Conto proibido : Madam, I'm Adam (1ª parte)

Prólogo:
“Do amoroso esquecimento
Eu, agora, - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci ?”
Mário Quintana

Estava amando e diziam que era Ada. Ada nada...O passado é que o condenava...ato idiota, passar tantas noites em frente à sacada da casa, no afã de vê-la: dissimulada,mentirosa, sedutora...
Foi uma paixão adolescente .
Quantas horas de quantas noites passou ali, à disposição ?
Podia ser como podia não ser. Loucura. Cabeça vazia, no peito ,só ódio. De si. Ódio do doido. Sempre ali, exposto, à mesma hora. E lhe avisavam :

“Ama fama? Vê lá, leva má fama!Ai, fama é a máfia”
“Um dia, a base do teto desaba.”
Mesmo assim, continuava. Omisso. Omissíssimo.
Arriscando-se mais uma vez, mesmo sabendo como as mulheres mentem e como os homens matam.
Havia tantas formas de morrer jovem.
- “O pó de cocaína mata maníaco cedo, pô!”
Questão de opção.
E loco é oco, lê ?
Noite.
Era hora,após a sopa. O marido de Ada, Leon, tinha horários de velho. Desse detalhe, gostava também, os ponteiros do relógio, como um radar, aumentavam a excitação. Ao mesmo tempo, no peito, um aperto. Desejo de voltar a ser inocente. Livre daquela sedução, livre do poder vil. Imaginava ,o velho, naquela hora :
- “Oi, dê-me remédio.”
E Ada :
“O Viagra ? Larga,Ivo.”
Ah, livre era papai noel, Leon ia papar era ervilha. Com pozinho. Sono pesado, logo após a sopa.
Era hora. O lavrador diligente conhece a rota do arado.
A sacada da casa. O abajur. Clic. Luz azul. Na janela, o vulto da diva:Ada levada, velada. Rir, o breve verbo, rir. A pequena fresta, o gesto de sempre. Parecia dizer :
Oi, rato otário !
Salta o atlas. Quem ama ou tem asas ou escala a janela, a torre da derrota.
No quarto, a diva ávida : Ada bêbada, dádiva à vida. Roda esse corpo, processe a dor. Ele padece da pele. A pateta ama até tapa.
O galo ama o lago. O galo no lago. Eva, asse e pape essa ave. A vida é a diva! Madam, I'm Adam.

Adias a data da saída ?
Não.
Chega.
Agora sabe a quem ama.
Ama Ana.
O teu drama é amar dueto.
O mito é ótimo.
Rir, o breve verbo, rir.

Prosa poética : A deusa e o poeta




A Deusa e o Poeta


Vênus ainda brilhava, ela sabia, mas olhou para cima novamente, antes de sair pela porta do hotel famoso.
Hora de voltar para casa. Um conforto. Mas antes, o seu ritual.
A figura alta e esguia ajeitou a peruca,deu uma retocada no batom, olhou-se no espelho e caminhou ao encontro do poeta.
Madrugada.
Silêncio, quebrado apenas pelo barulho dos saltos altos. Nessas horas, a solidão batia. Começou a cantarolar baixinho, aquela do Vinícius, que ninguém mais lembrava “Quando o adeus existe ,e é tão triste o nosso amor,Ah! Vem comigo,em silêncio,vem olhar,esta noite amanhecer, iluminar,os nossos passos tão sozinhos...”
Sozinho.
Quantos homens passaram por sua cama naquela noite ?
Ele não se importava :corpo de homem, alma de deusa,nesta hora de noite-amanhecer, em que os saltos doíam e as ilusões ficavam mais frágeis, só ansiava por uma coisa.
E lá estava o poeta, esperando, sentado no banquinho, como sempre.
Suspirou e atravessou a avenida. Aproximou-se devagar, solene, olhando para o ancião com carinho :
Bom dia, poeta!
Sentou-se.
O poeta não disse nada, não precisava, compartilhavam o silêncio prazeroso das grandes amizades. Estava contemplando o azul puríssimo daquelas águas espelhadas, meditativo. Delicadamente, a deusa passou-lhe o braço pelos ombros e ficaram ali sentados : o poeta impassível, a deusa, sentimental, de olhar úmido.
Netuno movimentava as águas e o seu ir e vir trazia de volta paixões,
lembranças, arrependimentos, trazia e levava, trazia e levava, até que
pareciam sumir no vôo de uma gaivota ou na passagem de uma vela...
Era nessa hora quando o brilho de Vênus estava bem fraquinho que a
deusa se levantava, sacudia a peruca, enxugava uma lágrima e num gesto final de reverência dizia :
- Adeus poeta!
Virava as costas e ia finalmente para casa dormir até o anoitecer.